Durante as últimas semanas, temos sido bombardeados por números acerca da pandemia do novo coronavírus. Dados e mais dados, análises e mais análises sobre esses dados. Mas será que estamos usando os dados corretos em nossas análises? Vejamos.
As duas informações que nos chegam com maior frequência são o número de casos confirmados de pessoas com o vírus e o número de mortes causadas pela doença (COVID-19). Indo direto ao ponto, para poupar o tempo de todos, são dois dados que, no Brasil, não podem ser realmente levados a sério. Explico. Ambos os números estão contaminados pela falta e atraso na aplicação de testes confiáveis. Sendo assim, discutir sobre eles, procurar fazer correlações com outros países e até mesmo projeções, a partir deles, é um erro infantil. Dados ruins geram modelos ruins, invariavelmente.
Mas, então, quais seriam os dados que deveríamos observar para minimamente termos uma noção da magnitude do problema? Sem entrar em tecnicalidades e cuidados estatísticos mais sofisticados (o que deve ser feito por quem estuda e precisa tomar decisões), sugiro que observemos a alguns dados. O primeiro é o número de mortes (por qualquer causa) de anos anteriores. Com base em dados extraídos do World Bank Database, relativos ao ano de 2018, sabemos que, na Itália, morreram aproximadamente 634 mil pessoas. Isso nos leva a uma média de 1.700 mortes por dia. Desconsiderando aspectos de sazonalidade nas mortes, quando ouvimos a notícia de que mil pessoas morreram na Itália em um único dia por COVID-19, devemos saber que esse número representa quase 60% da média diária de 2018. Acho que não preciso falar mais nada para você entender o significado disso.
Aproveite agora para anotar e acompanhar alguns números. Nos Estados Unidos morreram, em 2018, cerca de 2,8 milhões de pessoas (ou 7,7 mil/dia). Quando você ouve que morreram 2 mil pessoas por COVID-19, em único dia lá, saiba que estamos falando de 26% do total das mortes médias diárias por qualquer causa. É bastante, né? No Brasil, o número de mortes, no mesmo ano, foi de aproximadamente 1,35 milhão (ou 3,7 mil/dia). Guarde esse número, repito, e o compare ao número de mortes anunciadas pela imprensa.
Outra informação importante que as autoridades de saúde pública deveriam nos informar é a comparação entre o número de internações por doenças respiratórias. Por exemplo, tome o número de internações desse tipo, em março de 2020, e o compare aos dados de março de 2019. Quanto maior o crescimento relativo dessa comparação, mais grave é a pandemia.
Por fim, façamos juntos uma simples projeção para entendermos quão importante é o isolamento social para achatarmos a tal curva epidemiológica. Imagine que tenhamos ao mesmo tempo 20% da população brasileira contaminada pelo novo coronavírus. Para aproximar, seriam 40 milhões de pessoas. Tomando-se por base o que os principais especialistas na área de saúde têm nos ensinado, é razoável supor que apenas 1% dos contaminados, nesse exemplo, 400 mil precisariam ser internados. No entanto, o número de leitos no país (para todas as enfermidades), incluindo os esforços de curto prazo que possamos fazer para aumentá-lo, não será superior a 80 mil. Nesse cenário, teríamos 320 mil pessoas desassistidas, no mínimo. Problema? Para responder, é simples: pense que você ou alguém querido pode estar entre elas. Não é preciso falar mais nada. Você, que se fixa em dados para tomar decisões, já sabe o que deve fazer.
Por Carlos Eduardo Furlanetti, diretor executivo do LABFIN.PROVAR – FIA
*Publicado originalmente no dia 11 de abril de 2020, no perfil do Prof. Furlanetti no LinkedIn*




