Uma das maiores preocupações de quem investe, ou é responsável por administrar investimentos, é a segurança das operações contra o risco de mercado. Idealmente, um bom investimento é aquele que oferece alto retorno com baixo risco. É por isso que você precisa conhecer bem qualquer estratégia para proteção; como é o caso das estratégias de Hedge.
Nesse ponto, você certamente já consegue esboçar uma definição simples de estratégia de hedge, não é mesmo? São estratégias voltadas à proteção das operações realizadas no mercado financeiro, reduzindo a probabilidade de perdas. Porém, essa explicação só arranha a superfície do assunto; e Hedge, em particular, é algo que confunde até os especialistas.
Nesse post, você vai entender realmente o que é Hedge e como essa estratégia funciona. Para quem se interessa pelo mundo das finanças, seja profissionalmente ou para fins pessoais, esse é um tema de alta importância. Então, está preparado para aprender?
Como surgiu o Hedge
Uma das melhores formas de entender qualquer assunto é dando uma olhada em sua história. Por isso, vamos apresentar uma breve versão de como surgiu o Hedge.
Nós podemos traçar a história do Hedging (isto é, da prática de Hedge), no mínimo, até o meio dos anos 1800. Na época, agroprodutores dos EUA levavam seus grãos até Chicago, onde compradores adquiriam as sacas e distribuíam por todo o país. Acontece que a produção era maior do que a demanda e os compradores forçavam os preços para baixo, causando sérios prejuízos aos fazendeiros. A impossibilidade do produtor estimar a qual preço conseguiria vender seus grãos era um problema. Inclusive, muitos desses fazendeiros foram à falência por causa disso.
Assim, por volta de 1848, os agroprodutores começaram a negociar antecipadamente com os compradores o preço para a aquisição de sua próxima safra, firmando um compromisso entre as duas partes. Esses compromissos facilitaram o planejamento dos fazendeiros e ajudaram a equilibrar a oferta e demanda no mercado.
Essa técnica acabou se expandindo para a negociação de outras commodities, como metais. Além disso, foram desenvolvidas maneiras de assegurar a integridade dos compromissos firmados; uma promessa de comprar o produto a certo preço não valia nada se, na hora de efetivar o negócio, uma das partes a descumprisse.
O que essa história tem a ver com Hedge? Bom, ela está na essência da definição formal de Hedge que é utilizada atualmente, e que você vai ver no próximo tópico.
O que é Hedge
Agora, provavelmente vai ficar mais fácil entender uma definição formal do que é Hedge.
Um compromisso financeiro futuro para comprar ou vender uma quantidade definida de um certo ativo, a um preço também determinado, que possibilita a garantia ou proteção daquilo que precisa ser produzido, consumido, ou em que é preciso investir.
Em outras palavras, assume-se uma posição comprada ou vendida em um derivativo, para se proteger contra a variação no preço do ativo, que pode ser uma commodity, moeda ou ação.
Uma curiosidade: o termo Hedge, como você deve imaginar, vem do Inglês; ele significa “cerca”, “limite”. Essa palavra tem tudo a ver com o conceito, que é de delimitar os preços, driblando a flutuação.
Aproveitando o assunto, que tal um pequeno glossário? Ao longo desse artigo, essas são algumas das expressões que você vai encontrar:
- Ativos de Hedge, ou instrumentos de Hedge, são os ativos que você adquire ou instrumentos que utiliza em uma estratégia de Hedge
- Ativos seguradores são os ativos que servem para proteção, os ativos de Hedge
- Ativos segurados são os ativos protegidos pela estratégia de Hedge
Como funciona uma estratégia de Hedge
O funcionamento básico de uma estratégia de Hedge é colocar uma parcela pequena do seu capital em um derivativo, um ativo de alto risco, em contraposição à maioria do capital que está investido em um outro ativo, menos arriscado. E é aqui que entra o segredo: o ativo de alto risco deve ter um comportamento oposto ao menos arriscado. Assim, você constrói uma espécie de balança, em que a alta de um ativo compensa a queda do outro.
A melhor maneira de explicar como funciona uma estratégia de Hedge é apresentando um exemplo prático.
Imagine que você comprou as ações de uma empresa por R$20 e, paralelamente, compre as opções de venda após três meses dessas ações. Tenha em mente que as opções, assim como os contratos futuros, são derivativos e servem como um seguro do investimento. As opções de venda são ativos que garantem o direito de vender as ações da empresa por um determinado valor, dentro de um determinado período.
Após um mês, se as ações caírem a R$10, você ainda tem o direito de vendê-las pelo valor estabelecido, pois você pagou o prêmio, que é o preço das opções. Além disso, ações e opções têm sempre um comportamento inverso: quando uma cai, a outra sobe. Ou seja, apesar da desvalorização, o investidor não sai necessariamente perdendo.
É importante observar que os derivativos usados como ferramentas de Hedge são apenas um seguro para o investidor. Portanto, não é recomendável colocar muito dinheiro neles. Na totalidade do seu patrimônio investido, eles devem corresponder a uma parte menor. Tenha em mente que eles são ativos de alto risco, portanto, se você tiver uma posição grande neles, estará muito exposto.
Quais são os tipos de Hedge
Existem quatro tipos de Hedge: cambial, natural, em commodities e em ações. Que tal entender as diferenças entre eles?
Hedge cambial
O Hedge cambial é o mais utilizado por investidores, e se apoia na força do dólar para proteção financeira. Afinal de contas, a moeda norte-americana não está sujeita à desvalorização que a moeda de outros países pode enfrentar em épocas de crise. O Hedge cambial consiste na compra de ativos derivativos de dólar, como:
- Moeda em espécie;
- Contratos futuros;
- Opções de compra;
- Títulos de câmbio.
Hedge natural
O Hedge natural está associado às ações de empresas exportadoras, que têm ativos em dólar ou operam com a moeda. Esses papéis se valorizam quando o real cai, porque a receita da exportação aumenta. Portanto, eles equilibram as perdas com ações de empresas que operam apenas com a moeda nacional.
Imagine só: se a empresa exportadora vende seu produto a US$1 a unidade, quando menos vale o real, maior será o valor da conversão da receita de exportação. Se US$1 = R$ 3,50, a venda de um produto rende R$3,50. Se US$1 = R$4,50, a mesma venda rende R$1 a mais. Isso significa que, mesmo que o real apresente queda, as ações dessa empresa provavelmente vão subir.
Essa é considerada uma forma de proteção indireta, porque não existe um vínculo direto entre os ativos segurados e os ativos seguradores.
Hedge em commodities
Lembra-se daquela história dos fazendeiros americanos, que nós vimos lá no começo do artigo? Pois é, além de ser a origem do Hedge, aquele também é o modelo de Hedge em commodities.
Basicamente, vendedores e compradores de produtos considerados commodities pactuam contratos futuros, acertando o preço pelo qual vão negociá-los, o que evita oscilações bruscas no preço. Isso é necessário porque, ao contrário de outros tipos de produtos, as commodities estão muito vulneráveis às consequências do excesso ou escassez de oferta no mercado.
Observe que o Hedge em commodities protege as duas partes da transação. Se a oscilação levar o preço para cima, o vendedor não poderá cobrar um valor acima do previamente acordado, o que protege o comprador. Por outro lado, se a oscilação derrubar o preço, o comprador não poderá oferecer um valor abaixo do combinado, o que protege o vendedor.
O ouro também entra na categoria do Hedge em commodities. Os instrumentos que podem ser adotados, nesse caso, são contratos futuros, fundos, e até mesmo jóias e barras de ouro.
Hedge em ações
O exemplo que você viu no tópico sobre como funcionam as estratégias de Hedge era, justamente, um exemplo de Hedge em ações. Consiste na compra conjunta de ações e opções de uma certa empresa, de modo que, se o valor das ações cair, o investidor seja “segurado” pelas suas opções.
A desvantagem de uma estratégia de Hedge
A vantagem da estratégia de Hedge é clara: mais segurança nas operações, proteção dos ativos e dos investimentos. Porém, você já se perguntou se ela tem alguma desvantagem? A resposta é sim.
A desvantagem de uma estratégia de Hedge é que ela reduz o potencial retorno do seu investimento. O motivo é simples: você mitiga risco, sendo que o potencial de retorno está sempre associado ao risco, e ainda despende um certo valor em ativos sobre os quais espera não ter lucro.
Para que fique mais claro, vamos retornar brevemente ao caso das commodities. Quando o vendedor assina o contrato futuro, combinando vender seu grão por R$80 a saca, ele se protege contra o risco de que, no momento da venda, o preço do mercado seja R$70 a saca; ou seja, ele se protege contra a perda de R$10. No entanto, ao mesmo tempo, ele se priva da oportunidade de usufruir do preço de mercado se, no momento da venda, ele chegar a R$90 a saca; ou seja, ele reduz seu potencial de retorno em R$10.
Você deve lembrar que o mercado é dinâmico, imprevisível, incerto. A incerteza nem sempre é ruim; o que você precisa considerar é o seu limiar de aceitação ao risco.
Existe, ainda, mais um aspecto que pode ser considerado uma fraqueza das estratégias de Hedge: elas não oferecem proteção absoluta. Mesmo adotando essas estratégias, qualquer investidor ainda pode ser atingido por grandes crises ou colapsos financeiros.
Erros comuns em estratégias de Hedge
Como já foi dito, o Hedge não é um assunto fácil nem para os especialistas em mercado financeiro. Por isso, podemos listar uma série de erros comuns, cometidos por quem tenta aplicar estratégias de Hedge sem entender bem como elas funcionam. Aqui vão alguns deles.
Não conseguir analisar o cenário
Uma estratégia de Hedge existe para proteger o investidor contra possíveis mudanças no mercado que gerariam depreciação dos seus ativos e perda financeira. No entanto, essa proteção tem seus limites. Para adotar a estratégia certa, você deve analisar o cenário e prever o comportamento mais provável dos ativos, para que o seu investimento na proteção não acabe tornando-se, em si mesmo, um prejuízo.
Não aproveitar o momento certo para usar a proteção
Depois que a proteção foi adquirida, você precisa reconhecer o momento certo para usá-las. Uma opção de venda, por exemplo, tem data para ser exercida; passada essa data, ela perde a validade e você perde o dinheiro que investiu nela. Por outro lado, quem se precipita e usa sua proteção para sair do jogo cedo demais também pode desperdiçar boas oportunidades de ganhos.
Não dosar a compra dos ativos de Hedge
Isso já foi dito antes, mas merece uma repetição: não se deve investir mais nos ativos seguradores do que nos ativos segurados. Isso seria o mesmo que comprar uma apólice de seguro de carro que vale mais do que o seu carro; sim, se você precisar usá-la, até pode lucrar – o problema é que você compra esperando não usar. Então, você gasta um dinheiro enorme no prêmio de uma apólice que nunca vai resgatar.
É por essa mesma lógica que os ativos de Hedge devem compor uma parte menor do seu portfólio de investimentos. Afinal, você não aposta na perda, mas no ganho.
Por que você não sabia sobre Hedging?
Depois de ler todo esse artigo sobre estratégias de Hedge, você pode estar se perguntando: Como eu não sabia sobre isso até hoje? Afinal, se existe uma maneira de tornar suas operações mais seguras, todo mundo deveria conhecê-la, não é mesmo?
Apesar de ser verdade, o Hedging enfrenta um obstáculo: é que a grande maioria dos investidores não se envolve com derivativos. Existe uma percepção de que esse tipo de ativo, de alto risco, não é interessante para quem tem o perfil Buy-and-Hold, isto é, quem compra ativos pensando em mantê-los na carteira por um longo prazo; e esse é o perfil mais comum no Brasil.
É importante apontar esse fato porque ele demonstra que o senso-comum sobre o mercado financeiro é marcado por mitos e incorreções. Portanto, em vez de confiar em percepções sem base, quem realmente deseja trabalhar com finanças ou investir para fins pessoais precisa buscar informações. Ou seja: ler e fazer cursos é essencial!
Nesse artigos, você descobriu o que é Hedge, como ele surgiu, como ele funciona, quais são os principais tipos, suas desvantagens e até os erros mais comuns em estratégias de Hedge. Agora, você tem uma base para incorporar essa técnica às suas operações. Ainda assim, não esgotamos o assunto!
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