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Questão de prioridade – Cuidado para não cairmos no picadeiro

abr 22, 2020 | Finanças, Pessoas, Varejo | 0 Comentários

O sistema de saúde de um país funciona como uma rede para o equilibrista. E nós, nessa alegoria, somos os equilibristas que foram chamados a atravessar de um ponto a outro do picadeiro, passando por uma corda. Se cairmos e houver uma rede, é grande a probabilidade de sairmos vivos. Se houver a queda e não tivermos uma rede, lá embaixo para nos proteger, estaremos em maus lençóis. Agora imaginem que no lugar dessa rede de proteção esteja uma multidão de pessoas vulneráveis. Se nos desequilibrarmos, cairemos diretamente sobre suas cabeças. Daí a tragédia está dada.

Resolvi começar a nossa conversa com a figura de linguagem, descrita no parágrafo anterior, para que nosso tempo aqui fosse bem proveitoso, como acho que tem sido em outros artigos que tenho publicado.

Vamos à provocação: será que existe contradição ou dilema entre a estratégia de isolamento para achatamento da curva epidemiológica da COVID-19 e a necessidade de uma rápida recuperação da economia? Convido-os a dialogarmos juntos sobre o tema. Proponho aqui o uso do método socrático, aquele que se vale do uso de perguntas para estimular o aprendizado e o conhecimento.

Comecemos por colocar as coisas em ordem. Já ouviram falar em prioridade? Vocês acham que é possível voltarmos às atividades sociais regulares, de forma ampla, sem criarmos as condições minimamente razoáveis para o sistema de saúde brasileiro cuidar das pessoas, em meio à atual pandemia? Para fins didáticos, vamos imaginar uma situação que se liga ao nosso cotidiano.

Você, agora, vive em Manaus, onde vejo, pela TV, o prefeito a chorar (literalmente) – pois o sistema de saúde local acabara de entrar em colapso, num cenário assombroso, onde mortos empacotados são deixados ao lado dos leitos de pacientes em tratamento. De repente, o poder público manauara, para não deixar a economia entrar em colapso, decide, na base do voluntarismo, que você deve voltar ao seu posto de trabalho. Imagine ainda que você precisa muito da remuneração dessa atividade para sobreviver. Como se sente, agora? Com medo? Coagido? Confortável? Um herói? Ah…pense que o poder público está preocupado com sua saúde: ele exige uso de máscara, que não toque no seu próprio rosto, que lave as mãos e use álcool gel. Para o nosso exemplo você usa transporte público, ok? Pensou? Então, já pode responder à questão do parágrafo anterior.

Exploremos, então, a alternativa na qual todos (ou a maior parte) voltam ao trabalho, lá em Manaus. É razoável supor que o número de casos de COVID-19 aumente, concorda? Os casos que precisarão de internação não poderão ser atendidos, pois não haverá leitos, não haverá médicos e enfermeiros. O filho procura um hospital para o pai que está com a COVID-19. Sua mãe também está com sintomas. Não encontra atendimento. Desespero? A esposa preocupa-se com o marido que está enfermo. O patrão já não pode contar com a produtividade desses funcionários. Infelizmente, os economistas de plantão muitas vezes se esquecem que não podemos esperar que o ser humano não tenha dores e sentimentos humanos. Ou será que podemos? Nesse cenário, teremos dois danos: um irreparável – as vidas perdidas; o outro, a economia – que seguirá rumo ao colapso, com menores chances de recuperação pelo desarranjo sanitário e social que foi criado.

Não estarei aqui a pregar que não se pense em estratégias para o retorno gradual às atividades. Não é esse o caso, pelo contrário. Temos de pensar seriamente nesse assunto. Mas creio que estratégias de retomada das atividades regulares devam endereçar primeiro a estruturação da “rede de proteção”, que são os serviços públicos de saúde. Exploremos isso.

Sem uma testagem maciça da população, que utilize planejamento, técnicas e metodologias estatísticas, não haverá plano que funcione. Indo mais fundo: esse processo de testagem, como descrito, tomará bastante tempo para produzir dados confiáveis que apontem caminhos a serem perseguidos. É importante termos claro que existem diferentes tipos de testes, com distintas eficácias e tempos para se obter os resultados. Não é só “apertar o botão” e tudo bem. Mais ainda, é preciso estruturarmos uma linha de atendimento domiciliar que seja proativa, que seja coordenada pelo poder público em conjunto com lideranças locais, com apoio das igrejas e das forças armadas, em especial, nas comunidades mais carentes. Que os testes sejam feitos no sistema de “drive-thru” para quem possui automóvel. Que tenhamos os hospitais abastecidos com medicamentos e kits de EPIs. Que tenhamos mais respiradores. Que tenhamos inaugurado mais leitos e hospitais de campanha. Que possamos contar com mais médicos, treinando profissionais de outras especialidades para o apoio no atendimento. Que tenhamos mais clareza sobre a eficácia dos tratamentos para que possamos compartilhar as boas práticas para todo sistema. Não é preciso reinventar a roda. Todas essas ações já estão em andamento pelo país afora e pelo mundo. Mas é importante que todos tenham consciência que isso leva tempo. Não existe milagre. As coisas não se dão por obra de voluntarismos.

Concentremos, então, as nossas energias na prioridade número um: a preparação do sistema de proteção à saúde, a nossa “rede”. Atualmente, temos nossos heróis mantendo o atendimento de saúde funcionando: médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, farmacêuticos, profissionais de limpeza dos hospitais, entre tantos outros. Heróis, repito. Temos de ajudá-los. Felizmente, também temos muitas empresas e trabalhadores mantendo suas atividades para suprir-nos de bens e serviços necessários à nossa sobrevivência. Agricultores e pecuaristas, indústrias de alimento, farmacêuticas, empresas de telecomunicações, distribuidoras de gás e energia, hiper e supermercados, farmácias, postos de combustíveis, entregadores, caixas de supermercado, estoquistas, motoristas de ônibus, caminhoneiros, policiais e bombeiros, enfim, muita gente está tomando risco para manter-nos em casa. Temos de ter eterna gratidão por essas categorias. Mas também precisamos ajudá-los.

Como em uma equipe vencedora, todos precisam cumprir o seu papel. E um ator importante, nesse contexto, tem muito a contribuir. Falo do Estado. Precisamos da ação coordenada do poder público para manter a economia viva. Já falamos sobre isso há semanas, quando propusemos em um artigo, aqui publicado, uma série de propostas de medidas de caráter econômico. Desde então, economistas de diversos matizes têm apresentado ideias criativas e exequíveis que podem nos ajudar a atravessar essa tormenta, com menor sofrimento.

Sabemos que, na situação em que nos encontramos, não há caminho sem dor. Não nos iludamos. Não vejo que exista solução razoável sem estruturarmos primeiro a nossa rede de proteção na área da saúde. É ela que, juntamente com ações governamentais que protejam as empresas e a renda dos cidadãos, vai nos dar confiança para voltarmos paulatinamente ao convívio social e à retomada econômica. Para isso acontecer, temos de aprender algumas lições básicas: 1ª) antes da economia, há a vida, o humano; 2ª) o Estado é um seguro que pagamos para ocasiões como essa e ele deve cumprir o seu papel social, com diligência, transparência, discernimento, responsabilidade, solidariedade e senso de urgência, sem apegos a ideologias que desviem o nosso foco; 3ª) que nos ajudemos uns aos outros, como forma máxima de expressão da solidariedade humana e, por fim, a quarta lição é que equilibristas voluntariosos, mal treinados e/ou acossados pelo dono do circo podem cair no picadeiro, colocando vidas, inclusive as dos palhaços, em risco.

É preciso cuidado.

Por Carlos Eduardo Furlanetti, diretor executivo do LABFIN.PROVAR – FIA

*Publicado originalmente no dia 22 de abril de 2020, no perfil do Prof. Furlanetti no LinkedIn*

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